Terça-feira, 22 de setembro de 2026

Mercado

Como as eleições estão mexendo com o Ibovespa e o dólar

Pesquisas eleitorais acirradas já derrubaram o dólar e fizeram o Ibovespa disparar mais de 3% em um pregão. Veja o efeito no mini índice e no mini dólar.

Ariel Fernandes·Analista CNPI·
Como as eleições estão mexendo com o Ibovespa e o dólar

Faltam poucas semanas para o primeiro turno das eleições presidenciais, marcado para 4 de outubro, e o mercado financeiro já parou de tratar o tema como assunto de fim de ano. Nas últimas semanas, cada nova pesquisa eleitoral tem se traduzido em movimento real de preço no Ibovespa, no dólar e na curva de juros, e não é exagero de manchete: teve pregão inteiro decidido por uma única pesquisa divulgada de manhã.

O que já aconteceu

No dia 8 de setembro, a divulgação de uma pesquisa Quaest mostrando o presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro tecnicamente empatados num eventual segundo turno, ambos em 41% das intenções de voto, fez o Ibovespa fechar o pregão em alta de 1,20%, aos 187.366,84 pontos, depois de ter chegado a marcar 189.487,70 pontos durante o dia. O dólar, no mesmo pregão, caiu 0,86%, fechando a R$5,086. Na leitura da Bloomberg Línea sobre a mesma sequência de pesquisas, o Ibovespa chegou a subir 3,05% num único pregão e o dólar recuou para perto de R$5,10, com os juros futuros também cedendo.

A leitura repetida por gestoras e analistas nesses dias foi direta: o mercado passou a considerar mais favorável uma eleição mais disputada do que um cenário de vitória tranquila do candidato à reeleição, o que fez parte do capital reprecificar a chance de alternância de poder. Isso ficou visível não só no preço à vista, mas também nas opções: houve aumento relevante na procura por opções do Ibovespa apostando num rali do índice em caso de vitória de Flávio Bolsonaro, candidato hoje mais associado pelo mercado a uma agenda considerada favorável aos interesses de investidores.

Vale registrar que nem toda leitura é unânime. A casa de análise Quantitas chegou a atribuir uma probabilidade de 50% de vitória a Flávio Bolsonaro, citando fatores políticos recentes no STF como favoráveis à oposição, mas outras leituras de mercado insistem que a maior mudança não foi a aposta em um vencedor específico, e sim o aumento da probabilidade atribuída à alternância de poder em si, o que já basta para mexer com o preço dos ativos.

O que o mercado está de olho

O horário eleitoral gratuito no rádio e na TV começou em 28 de agosto e vai até 1º de outubro, e cada nova pesquisa divulgada nesse período tende a repetir o padrão dos últimos dias: reprecificação rápida quando o resultado surpreende, silêncio relativo quando confirma o que já estava no preço. Além da Quaest, o mercado também reagiu a uma pesquisa Datafolha, que indicou o Lula à frente num eventual segundo turno, e a uma leitura do BTG/Nexus que apontou empate técnico, com Flávio Bolsonaro numericamente um ponto à frente.

O foco do mercado não está apenas em quem vence, mas no que cada campo sinaliza para o Orçamento, a política fiscal e a reforma tributária a partir de 2027. A curva de juros futuros tem funcionado como um termômetro adicional: quando os juros mais longos sobem de forma persistente, mesmo sem choque externo relevante, costuma ser leitura de que o mercado está exigindo um prêmio maior para carregar risco fiscal brasileiro.

O que a história ensina, sem virar previsão

Isso não é a primeira vez que o mercado brasileiro reage assim a uma eleição, e há número real por trás disso. Levantamento que compara a volatilidade do Ibovespa nos meses de outubro e novembro dos últimos três ciclos eleitorais (2014, 2018 e 2022) contra os mesmos meses de anos sem eleição mostra volatilidade média de 30,83% em reais nos anos de eleição, contra 18,65% nos anos sem votação, uma diferença de aproximadamente 65%. Medida em dólares, a distância é ainda maior: 45,17% contra 25,64%.

Dito isso, não existe um padrão único e repetível de "o dólar sobe" ou "o dólar cai" em ano eleitoral: em alguns ciclos anteriores o dólar subiu com força, em outros o movimento foi de estabilidade ou até valorização do real. A volatilidade tende a aumentar de forma mais consistente na janela entre o primeiro e o eventual segundo turno, quando a disputa fica mais tensa e o investidor busca proteção, mas o sentido do movimento (para cima ou para baixo) depende do resultado, não é uma tendência garantida de antemão.

O que isso muda no dia a dia de quem opera mini índice e mini dólar

Três pontos práticos para quem senta na tela até 4 de outubro:

Primeiro, o horário das pesquisas eleitorais virou, na prática, um evento de agenda como qualquer outro dado macro. Institutos como Datafolha e Quaest costumam divulgar seus levantamentos em horários específicos, muitas vezes à noite ou no início da manhã, e o pregão seguinte já abre precificando a nova informação. Vale saber que uma pesquisa pode sair a qualquer momento entre agora e o primeiro turno, o que aumenta o risco de gap de abertura, principalmente às segundas-feiras.

Segundo, a reação nem sempre é proporcional à mudança real nos números. Como já vimos em setembro, uma diferença de poucos pontos percentuais entre candidatos, quando contraria o que o mercado já esperava, pode gerar um movimento de mais de um por cento no índice e queda relevante no dólar no mesmo pregão. Operar com stop mais largo que o normal em dias de divulgação de pesquisa, ou reduzir o tamanho da posição, é gestão de risco básica, não previsão de resultado eleitoral.

Terceiro, a volatilidade tende a subir mais ainda entre o primeiro e o eventual segundo turno. Se o histórico de 2014, 2018 e 2022 se repetir, mesmo que só parcialmente, as próximas semanas até o dia 4 de outubro e, se houver segundo turno, até 25 de outubro, tendem a concentrar mais movimento do que um mês comum. Isso não é motivo para parar de operar, é motivo para operar com o risco definido antes de cada pregão, não durante ele.

Fechamento

Eleição não é ativo que se opera, é contexto que muda o comportamento dos ativos que já fazem parte da rotina de quem opera mini índice e mini dólar. Ninguém no mercado sabe qual vai ser o resultado das urnas, e qualquer discurso que prometa saber está vendendo certeza que a própria história recente já mostrou que não existe.

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