O primeiro turno terminou no domingo e nesta segunda a bolsa respondeu com uma alta de um dia que não se via havia mais de seis anos. O Ibovespa fechou a 206.911,89 pontos, alta de 7,70%, depois de bater pela primeira vez na história os 200 mil pontos, com máxima intradiária de 209.605,70 por volta das 10h40, segundo a InfoMoney. É a maior alta diária desde 24 de março de 2020, quando o índice havia subido 9,69% no início da pandemia, segundo a Exame. Para quem opera mini índice e mini dólar, foi um dia fora da curva, e tem lição de processo nele além do número que virou manchete.
O resultado que moveu o pregão
Flávio Bolsonaro (PL) terminou o primeiro turno com 47,03% dos votos válidos, à frente de Lula (PT), com 45,16%, segundo o Tribunal Superior Eleitoral. Os dois vão ao segundo turno, marcado para 25 de outubro. A abstenção ficou em 21,08%, e Augusto Cury (Avante) apareceu em terceiro, com 2,89%. Segundo a Exame, o cenário mais provável para o mercado, antes da apuração, era uma disputa apertada com Lula na frente. Não foi isso que aconteceu, e boa parte do tamanho da reação de hoje vem exatamente dessa diferença entre o que se esperava e o que saiu da urna.
Bolsa: o gap que não devolveu tudo
O índice abriu em gap: às 10h22 já subia 8,02%, aos 207,5 mil pontos, segundo o Estadão Conteúdo. A máxima do dia saiu dentro da primeira hora de pregão, às 10h40, nos 209.605,70 pontos. Dali até o fechamento, o índice devolveu cerca de 2.700 pontos, terminando a 206.911,89, sem perder o ganho do dia. Nas ações individuais, Magazine Luiza liderou as altas com 27,20%, seguida por B3 (25,32%) e BTG Pactual (acima de 25%), segundo a CNN Brasil. Vale foi a única ação grande do índice em queda, recuando mais de 2%. Lá fora, o EWZ, ETF que replica uma cesta de ações brasileiras negociada em dólar em Nova York, subiu 12,54%, segundo a Yahoo Finance, com volume de negócios que, de acordo com o Valor, foi o maior desde o chamado "Joesley Day", em 2017.
Dólar: queda de 4,12%, maior que a do 1º turno de 2022
O dólar fechou a R$ 5,0018, queda de 4,12%, número que aparece de forma convergente na Money Times, na CNN Brasil e na InfoMoney. A mínima do dia saiu por volta das 10h35, a R$ 4,9540, queda de 5,03%. A queda supera a do pregão seguinte ao primeiro turno de 2022, quando o dólar recuou 4,07%, segundo a Money Times. A PTAX de hoje fechou em R$ 4,9859, ante R$ 5,2238 na sexta feira anterior, de acordo com o Banco Central.
Juro longo: o mercado precificou alívio fiscal
No mercado futuro de juros, as taxas mais longas caíram com mais força. O contrato para janeiro de 2028 fechou em 12,665%, ante 13,509%, queda de 84 pontos base. O de janeiro de 2029 recuou 114 pontos base. O mais sensível foi o de janeiro de 2035, que fechou a 12,80%, ante 14,131%, queda de 133 pontos base, com mínima intradiária de 12,735%, segundo a InfoMoney. A Selic segue em 13,75%, conforme o Banco Central. É o pedaço da curva mais longa, o que mais depende de expectativa sobre trajetória fiscal lá na frente, que mais se moveu.
Lais Costa, da Empiricus Research, chamou atenção para o contrato de 2029: "o janeiro 2029 cai impressionantes 114 pontos base, e a probabilidade de corte de 50 pontos em novembro vem à mesa", disse à InfoMoney. Rebecca Nossig, da Nomad, resumiu à CNN Brasil o que o mercado está lendo: "mais do que o alívio imediato, o resultado das urnas trouxe uma sensível melhora nas perspectivas para a trajetória da dívida pública".
O motor foi daqui dentro, não lá fora
Vale registrar o contraste: lá fora o dia não foi de dólar fraco. O DXY, índice que mede a força do dólar contra uma cesta de moedas, subiu 0,21%, e o juro do Treasury de 10 anos dos Estados Unidos fechou em 5,31%, a maior taxa em 24 anos, segundo a Money Times. Mesmo assim o real se valorizou e o Ibovespa disparou, sinal de que o movimento nasceu de um fator doméstico, não de uma onda vinda de fora. Nos Estados Unidos, o S&P 500 subiu 0,66% e o Nasdaq avançou 1,05%, renovando recorde, segundo a Yahoo Finance e a Money Times.
Emerson Junior, da Convexa Investimentos, resumiu a leitura do mercado à Money Times: "os investidores apostam fortemente na vitória de Flávio no segundo turno e na implementação das reformas econômicas". Marco Saravalle, da Krivo Capital, ponderou à InfoMoney que "Congresso de direita não significa automaticamente Congresso fiscalista", e completou com a frase que resume o momento: "há uma diferença importante entre expectativa e entrega. É justamente essa distância que deverá determinar quanto do movimento de hoje será sustentável".
Duas casas já colocaram número em cima dessa expectativa, cada uma com o próprio nome atrelado à projeção, não como fato dado: o UBS BB avalia que o dólar pode recuar para a faixa entre R$ 4,50 e R$ 4,60 em três a seis meses, segundo a Money Times, e o Goldman Sachs, em nota citada pela InfoMoney, trabalha com um real mais forte e o dólar perto de R$ 4,50. São leituras de duas casas de análise sobre o futuro, não uma previsão desta reportagem.
O que fica para quem opera mini índice e mini dólar
Aqui está o ponto que interessa mais de perto a quem senta na mesa operando WIN e WDO, e que passa longe da manchete. O resultado da urna saiu num domingo, fora de qualquer horário de pregão, então o mercado só pôde precificar a notícia inteira de uma vez, na abertura de segunda. O efeito prático apareceu no relógio: tanto a máxima do Ibovespa quanto a mínima do dólar saíram dentro da primeira hora de pregão, por volta de 10h35 e 10h40. Depois disso, o índice devolveu cerca de 2.700 pontos até o fechamento, e o dólar também subiu de volta da mínima até fechar perto de R$ 5,00.
Quem entrou correndo atrás do preço nesse primeiro movimento operou exatamente na maior amplitude do dia inteiro. Quem definiu o stop e o tamanho da posição antes de ver pra que lado o primeiro candle ia abrir teve uma régua de risco pronta pra esse ajuste que veio depois, em vez de descobrir o tamanho do risco na marra. Isso não é exclusividade de hoje: sempre que uma notícia relevante acontece fora do horário de pregão (eleição, decisão de fim de semana, fechamento forte do exterior na madrugada), o padrão tende a se repetir: gap na abertura, amplitude maior que o normal na primeira hora, parte do movimento devolvida ao longo do pregão. A régua prática continua a mesma: definir stop e tamanho de posição antes de saber a direção do primeiro candle, não depois de já estar posicionado dentro dele. É esse tipo de leitura de abertura, no calor do próprio pregão, que a mesa comenta ao vivo na sala de operações da TSR Educação.
O que vem até 25 de outubro
A frase de Saravalle sobre "expectativa e entrega" é a ponte mais honesta para os próximos vinte dias. Pelas leituras citadas acima, o mercado tratou o resultado de domingo como alívio de um risco fiscal que parecia maior, mas o tamanho da reação de hoje também é a régua que vai medir a decepção, se a entrega não vier. Não cabe a esta reportagem projetar o resultado do segundo turno, e nenhuma das fontes consultadas hoje faz essa aposta. O que dá pra acompanhar, com dado e fonte, é como o Congresso recém eleito se posiciona em relação à agenda fiscal, e se os sinais que o mercado já comprou hoje de fato se confirmam nas próximas semanas. Até lá, para quem opera mini índice e mini dólar, proteger o capital importa mais do que acertar o lado da próxima notícia.




